Pequenas Crianças
Martha Medeiros
O problema de sair de férias é que podemos retornar com um assunto já comentado por outros colunistas, mas vou correr o risco e dizer, eu também, que achei uma pena que o filme Pecados Íntimos tenha merecido um título tão nada a ver. O filme não faz pré-julgamentos e a palavra pecado já caducou. É muito provincianismo atrair bilheteria com títulos apelativos. Melhor seria dar um voto de confiança ao público, que é capaz de compreender títulos mais sutis, como o original Little Children. Criancinhas resume com perfeição o que vemos na tela.
Um homem e uma mulher se conhecem num parquinho, onde levam os respectivos filhos para brincar. Cada um está acomodado num casamento protocolar, sem alegria, sem tesão. Papo vai, papo vem, o romance entre eles começa. Além deste affair, o filme mostra também uma relação entre mãe e filho - sendo que o filho é um pedófilo recém saído da prisão e que apavora o bairro onde vive -, e o desalento de um falso moralista que tem acessos de carência dignos de um garotinho de cinco anos.
Só que os personagens do filme não têm cinco anos. São adultos precisando lidar com seus medos e desejos, adultos cedendo a pequenas e grandes tentações, adultos fazendo escolhas sem garantia de nada.
Mais: adultos que olham por baixo da mesa para ver se o marido está acariciando as pernas da convidada do jantar. Adultos que sonham em fazer manobras radicais no skate. Adultos que tramam uma fuga romântica e deixam bilhetinhos de despedida. Adultos que acham muito natural ser monitorados pela sogra. Adultos que choram sentados no meio-fio da calçada porque se sentem traídos pelo melhor amigo.
Adultos?
Sim, adultos. Pelo menos é este o termo usado para identificar aqueles que trabalham, que dirigem, que votam, que são responsáveis pelos seus atos e que, aparentemente, têm a cabeça no lugar.
O filme me despertou uma certa compaixão. Por mais que eu aplauda o que convencionamos chamar de "maturidade", no fundo acredito que somos, todos nós, crianças que cresceram mais em estatura do que emocionalmente, crianças que foram empurradas para o meio do palco e que precisam ter suas falas na ponta da língua, conforme foram ensaiadas desde a primeira infância. Somos homens e mulheres na segunda, terceira, quarta, quinta infância, nos apegando aos nossos parcos conhecimentos e às nossas inúteis experiências para tentar não errar demais. Somos crianças que choram escondidas no banheiro, que tomam atitudes insensatas, que dizem o que não deveriam ter dito e que, nos momentos de desespero, gostariam de chamar um "adulto" para resolver a encrenca em nosso lugar. Mas que adulto? Deus? Ele tem mais do que se ocupar. Resta-nos chorar no meio-fio da calçada mesmo, caso não fosse um vexame.
Os maduros têm certezas. Os maduros não vacilam. Os maduros são pragmáticos. Os maduros ganham dinheiro. Os maduros assumem seus atos. Os maduros sabem o que dizer e como se comportar. Os maduros só fraquejam diante da orfandade - perder pai e mãe é perturbador em qualquer fase da vida - mas logo reassumem o controle e seguem em frente. Não se espera outra coisa deles. Se tentarem fugir de suas responsabilidades, serão considerados pessoas instáveis e infantis. E quem tolera ser considerado infantil a esta altura?
Então a gente presta atenção em volta, imita nossos pais e amigos, se apega a um roteiro conhecido, faz um certo teatro, tudo para que não percebam que, em silêncio e na solidão, somos apenas crianças grandes.
Domingo, 11 de março de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.